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SELO OURO ESCONDE REALIDADE? EDUCAÇÃO DE LEME APRESENTA QUEDA EM INDICADORES E ACENDE ALERTA
Jornal Tribuna de Leme | 31/03/2026

SELO OURO ESCONDE REALIDADE? EDUCAÇÃO DE LEME APRESENTA QUEDA EM INDICADORES E ACENDE ALERTA

Enquanto a Prefeitura de Leme comemora, pelo segundo ano consecutivo, a conquista do Selo Ouro do programa Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, do Ministério da Educação, os números oficiais revelam um cenário preocupante na qualidade do ensino municipal.

Por trás do reconhecimento, os dados mostram que o desempenho dos alunos — especialmente em português e matemática — vem oscilando e, em alguns casos, regredindo nos últimos anos.

IDEB: DE DESTAQUE A QUEDA NO DESEMPENHO

O IDEB - Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, principal indicador nacional da qualidade do ensino, mostra uma mudança clara na trajetória de Leme.

Após superar as metas em 2017 e 2019, o município passou a apresentar queda:

- 2017: meta 6,4 | alcançado 7,0

- 2019: meta 6,6 | alcançado 6,9

- 2021: meta 6,8 | alcançado 6,5

- 2023: meta 6,8 | alcançado 6,6

Ou seja, Leme saiu de um cenário de superação para um desempenho abaixo das metas projetadas, sinalizando perda de qualidade no ensino básico.

SARESP: QUEDA EM PORTUGUÊS E MATEMÁTICA PREOCUPA

Os dados do Saresp reforçam o alerta. No 2º ano do ensino fundamental, fase-chave da alfabetização:

Português

- 2023: 174 pontos

- 2024: 192,3 pontos

- 2025: 187,5 pontos

Matemática

- 2023: 165,2 pontos

- 2024: 188,7 pontos

- 2025: 188,4 pontos

Apesar de uma recuperação momentânea em 2024, os índices voltaram a cair, mostrando instabilidade no processo de aprendizagem.

E mais: Leme ficou atrás de Santa Cruz da Conceição, que hoje se destaca como referência regional em desempenho educacional.

5º ANO: RESULTADOS ESTAGNADOS E BAIXA EVOLUÇÃO

No 5º ano — etapa final da rede municipal — o cenário também preocupa.

Português

- 2023: 205,3

- 2024: 209,9

- 2025: 209,8

Leme foi uma das poucas cidades da região que não conseguiu avançar no desempenho.

Em matemática, houve leve melhora, mas ainda assim o município segue atrás de cidades vizinhas como Santa Cruz da Conceição e Porto Ferreira.

REALIDADE NAS ESCOLAS CONTRADIZ DISCURSO

Os números não estão isolados — eles refletem o que professores, pais e servidores vêm denunciando no dia a dia das unidades escolares.

Além dos problemas estruturais, falta de profissionais e carência de investimentos pedagógicos, uma situação tem chamado ainda mais atenção: professores estão atendendo alunos de inclusão sem o suporte de professores de apoio.

O resultado é uma sobrecarga evidente.

Profissionais acumulam funções, lidam com diferentes níveis de aprendizagem e necessidades específicas sem o suporte adequado — o que gera desgaste, desmotivação e compromete o processo de ensino.

E, ainda assim, mesmo diante de tantas dificuldades, os resultados alcançados pela rede municipal refletem, sobretudo, a competência, dedicação e esforço do corpo docente. São os professores que, na prática, sustentam a educação pública no município.

Especialistas apontam que, com mais apoio, valorização profissional, estrutura adequada e uma gestão verdadeiramente comprometida com a qualidade da educação, os indicadores seriam significativamente melhores.

A realidade mostra que o potencial existe — o que falta é suporte e gestão.

INVESTIMENTO OU INVERSÃO DE PRIORIDADES?

Recursos como o FUNDEB, que deveriam fortalecer a base da educação, parecem não estar sendo aplicados de forma estratégica para resolver os gargalos reais da rede.

Especialistas apontam que, sem foco em alfabetização sólida, formação continuada de professores, infraestrutura adequada e reforço pedagógico, os indicadores tendem a continuar em queda.

Observa-se que houve uma estagnação ou até mesmo regressão na aprendizagem dos estudantes nessa área, o que pode estar diretamente relacionado a mudanças recentes na organização curricular, SUBSTITUINDO O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA POR “AULAS” DE ROBÓTICA.

A substituição de aulas de Língua Portuguesa por atividades de robótica, embora apresente uma proposta inovadora e alinhada às demandas tecnológicas contemporâneas, parece ter ocorrido sem o devido equilíbrio pedagógico. A Língua Portuguesa é uma disciplina estruturante, fundamental para o desenvolvimento da leitura, da escrita, da interpretação de textos, raciocínio lógico-matemático e do pensamento crítico, competências essenciais para o aprendizado em todas as demais áreas do conhecimento.

Portanto, os resultados da avaliação servem como um alerta para a necessidade de revisão das políticas educacionais no município. É fundamental buscar um equilíbrio entre inovação e fortalecimento das competências básicas, garantindo que o avanço tecnológico caminhe lado a lado com a qualidade do ensino tradicional.

ALERTA PARA O FUTURO

Os dados mostram que Leme vive hoje um momento de alerta na educação básica. Enquanto o reconhecimento oficial aponta um cenário positivo, os indicadores revelam outra realidade: queda no desempenho, dificuldade na alfabetização e estagnação nos anos finais da rede municipal. E o impacto disso é direto: com alunos com dificuldades acumuladas, professores sobrecarregados e perda de qualidade no ensino público.

ENTRE O DISCURSO E A REALIDADE

A pergunta que fica é inevitável: como conciliar um selo de excelência com indicadores em queda?

A resposta pode estar na gestão.

Sem planejamento, sem foco no essencial e com possíveis inversões de prioridade, a educação deixa de avançar — e quem paga o preço são os alunos.

Porque, no fim das contas, mais importante que qualquer selo é garantir que as crianças aprendam de verdade.