EM ENTREVISTA EXCLUSIVA AO JORNAL, WAGÃO RESPONDE PERGUNTAS A RESPEITO DE LEME E DA GESTÃO CLAUDEMIR BORGES
1) Como o senhor avalia a gestão do prefeito Claudemir Borges?
Wagão: Eu costumo dizer que antes de avaliar uma gestão, é preciso entender o perfil de quem governa. O próprio Claudemir se define mais como político do que gestor e isso se reflete nas decisões.
Ele prioriza articulação política, evita conflitos e busca agradar aliados, muitas vezes ocupando cargos com critérios políticos e não técnicos. Já a gestão pública exige planejamento, eficiência e enfrentamento de problemas.
Hoje, o que vemos é uma administração com muita exposição, eventos e ações pontuais, mas com baixa efetividade nos serviços essenciais. A população sente isso na pele: dificuldade para conseguir atendimento na saúde, problemas na educação, falhas na limpeza urbana e buracos por toda a cidade.
Ou seja, é uma gestão com muito movimento, mas pouca entrega concreta.
2) A mudança na Secretaria de Educação, com a nomeação do pastor, advogado e vereador Elias Ferrara, trouxe resultados?
Wagão: Desde o início, eu me posicionei de forma contrária à nomeação de alguém sem formação ou experiência na área da educação para comandar a Secretaria. Não se trata de uma questão pessoal, mas sim de respeito técnico à área e aos profissionais da educação.
A gestão educacional exige conhecimento específico, planejamento pedagógico e compreensão da realidade das escolas. Quando isso não é observado, os resultados aparecem e, infelizmente é o que estamos vendo.
O ano letivo começou e os problemas estruturais permanecem: escolas sem manutenção adequada, infiltrações, falta de pintura, toldos danificados. Ou seja, o básico ainda não está sendo atendido.
Além disso, já estamos em abril e ainda há atraso na entrega de uniformes e materiais escolares, o que demonstra falha no planejamento e na execução.
Por outro lado, os investimentos seguiram em áreas que não são prioridade neste momento. Foram aproximadamente R$ 5 milhões destinados à robótica, além de outros valores significativos em monitoramento por câmeras. E o que se viu foi a necessidade de remanejar recursos, inclusive da folha de pagamento, para conseguir suprir itens essenciais como uniforme e material escolar.
Isso evidencia um problema claro de definição de prioridades. Enquanto o básico não é garantido, recursos elevados continuam sendo direcionados para projetos que, embora possam ter seu valor, não substituem as necessidades imediatas da rede.
Portanto, na prática, houve apenas uma mudança formal de gestão. A condução continua apresentando os mesmos problemas, sem evolução concreta. E os indicadores só não são ainda mais prejudicados porque o corpo docente da rede municipal é qualificado e comprometido, conseguindo sustentar, com muito esforço, as deficiências da gestão.
A educação precisa ser tratada com prioridade real, e isso começa por decisões técnicas e planejamento eficiente, o que, até o momento, não tem sido observado.
3) E a situação da saúde em Leme?
Wagão: A saúde sempre é um desafio em qualquer cidade, mas o cenário piorou.
O principal problema hoje é o acesso: a população não consegue agendar consultas, há demora em exames e relatos constantes de falhas no atendimento. Além disso, a estrutura também preocupa, como ambulâncias em condições precárias.
E quando você vê gastos elevados em outras áreas, como eventos, enquanto a saúde enfrenta dificuldades, isso evidencia um problema de gestão e de definição de prioridades. Um exemplo é a contratação do show da Simone Mendes para esse ano que custará R$ 850 mil aos cofres públicos. Não seria melhor comprar 3 ambulâncias e resolver esse problema na cidade? Ele preferiu deixar a população sem esse serviço e investir no show, pois dá visibilidade, dá palco.
4) Sobre a retirada de serviços de saúde de prédio próprio para aluguel, cedendo o prédio ao Lions Clube, qual sua avaliação?
Wagão: Isso é um erro grave de gestão. Você retira um serviço de um prédio público, que não gera custo, para colocá-lo em um imóvel alugado, aumentando despesas, apenas para viabilizar a cessão do espaço para uma entidade, para agradar um político em específico.
Isso fere diretamente o princípio da economicidade e não faz sentido do ponto de vista administrativo.
Não sou contra ajudar entidades, mas isso deve ser feito com planejamento e responsabilidade, sem prejudicar serviços públicos. Existem alternativas, como cessão de terrenos, por exemplo.
Da forma como foi conduzido, entendo que há irregularidades e por isso vou buscar as medidas judiciais cabíveis.
5) O senhor comentou sobre o Anel Viário. Qual a importância dessa obra?
Wagão: É uma obra estruturante para o futuro da cidade.
Esse projeto foi planejado na nossa gestão, entre 2017 e 2020, com apoio técnico de muita gente boa, como o Fernando Klein, Secretário de Obras na época e toda a sua equipe, que em nome do Henrique, agradeço a todos pelo empenho nesse projeto, com base no Plano Diretor. Ele não resolve apenas o problema da Avenida da Saudade, ele cria um novo eixo de mobilidade urbana.
Estamos falando de um projeto em longo prazo, que vai organizar o crescimento da cidade, melhorar o trânsito e atrair desenvolvimento.
É importante reconhecer que obras públicas são construídas ao longo do tempo e com participação de diferentes gestões.
6) É possível reestruturar os servidores públicos hoje?
Wagão: Sim, mas exige responsabilidade e decisões difíceis.
Nos meus mandatos, cada etapa teve um foco:
- Regularizamos salários atrasados
- Criamos o sistema previdenciário (LemePrev)
- Fizemos reestruturações de carreiras
Tudo isso com planejamento.
Hoje, é possível avançar, mas é preciso cortar excessos. Houve aumento de cargos comissionados e gastos desnecessários.
Gestão é fazer escolhas. Se não houver controle de gastos, não há como melhorar salários e estrutura sem comprometer o futuro.
7) O senhor apoiou o Claudemir. Como explica as críticas atuais?
Wagão: Essa é uma questão importante e precisa ser tratada com responsabilidade. De fato, o Claudemir é do mesmo partido, fez parte de um projeto de continuidade e teve o meu apoio, assim como de todo o grupo político. No entanto, é fundamental deixar claro que apoio político não significa co-gestão.
As decisões administrativas são pessoais e intransferíveis. Quem ocupa o cargo de prefeito é ele, e, portanto, todas as escolhas feitas ao longo da gestão são de sua inteira responsabilidade.
E isso fica evidente em várias situações concretas. Por exemplo, a ampliação do programa de robótica para o Pré-II — crianças de 5 anos — foi uma decisão exclusiva dele. Eu sempre me posicionei contrário, por entender que essa faixa etária ainda não possui maturidade cognitiva adequada para esse tipo de conteúdo. Mesmo assim, o programa foi ampliado, elevando os custos de cerca de R$ 2 milhões para quase R$ 10 milhões, conforme apontamentos já levantados.
Outro ponto é o aumento de cargos comissionados. Durante minha gestão, trabalhamos com uma estrutura mais enxuta e eficiente. Já essa ampliação para acomodar aliados políticos foi uma escolha dele, com a qual eu não concordo.
Da mesma forma, a composição do secretariado, também reflete decisões próprias. Hoje há secretários que, inclusive, não faziam parte do nosso grupo político anteriormente, o que demonstra claramente que as escolhas são feitas de forma autônoma.
Portanto, é preciso separar as coisas: eu apoiei um projeto político, mas não participo da gestão. Eu opino, converso, contribuo quando sou ouvido, mas quem decide é o prefeito.
E justamente por isso, quando vejo decisões que, na minha avaliação, não são as mais adequadas para a cidade, eu me sinto no dever de me posicionar. Não posso me omitir diante de escolhas que impactam diretamente a população e que, muitas vezes, não refletem aquilo que defendemos enquanto grupo.
Tenho convicção de que, nos últimos meses, houve mais equívocos do que acertos, e isso tem se refletido na ausência de resultados mais consistentes. Ainda há tempo para ajustes, mas é fundamental reconhecer que o rumo adotado até aqui é uma escolha exclusiva da atual gestão.
8) Como presidente do partido, o senhor pode tomar alguma medida contra ele?
Wagão: Não há qualquer fundamento para uma medida dessa natureza. A expulsão de um filiado só pode ocorrer quando há violação às normas partidárias, e esse não é o caso. Divergências de opinião, especialmente sobre gestão pública, fazem parte do ambiente democrático e não configuram infração.
Para explicar de forma simples: imagine uma família em que dois irmãos foram criados com os mesmos valores, tiveram as mesmas oportunidades e a mesma formação. Ainda assim, é natural que, ao longo da vida, cada um desenvolva visões e tome decisões diferentes. Isso também acontece na política.
Outro exemplo: um diretor de escola escolhe um vice-diretor, que é um cargo de confiança. Se, em determinado momento, o vice-diretor toma decisões com as quais o diretor não concorda, isso impede o diretor de se manifestar? Claro que não. A escolha foi dele, mas as decisões e atitudes do vice são de responsabilidade do próprio vice.
Na política, funciona da mesma forma. Eu apoiei o Claudemir, ele faz parte do mesmo grupo político, mas as decisões administrativas são exclusivamente dele. Eu não participo da gestão e não sou responsável pelas escolhas que ele tem feito.
Por isso, me reservo o direito, e diria até o dever, de me posicionar quando entendo que decisões não estão alinhadas com aquilo que considero correto do ponto de vista da gestão pública.
Tenho convicção de que, nos últimos meses, muitas decisões têm sido equivocadas e isso se reflete na falta de resultados concretos para a população. Ainda a tempo de corrigir rumos, mas, até o momento, a administração não conseguiu consolidar uma marca clara ou um legado consistente.
E é justamente por responsabilidade com a cidade que continuo me manifestando.
9) Wagão, A pergunta que mais se ouve nas ruas, você será candidato a prefeito em 2028?
Wagão: Essa é, de fato, uma pergunta que tenho ouvido com muita frequência nas ruas, e eu encaro isso com muita responsabilidade.
Eu tenho, sim, o desejo de me colocar novamente à disposição da população de Leme. Entendo que, ao longo das nossas gestões, avançamos muito em diversas áreas, mas também reconheço que ainda há projetos importantes que precisam ser consolidados para completar esse ciclo de desenvolvimento da cidade.
Tenho convicção de que posso contribuir, ainda mais, principalmente na ampliação da saúde, com foco em agilidade e qualidade no atendimento, incluindo a construção de um novo pronto atendimento 24 horas e o fortalecimento da atenção básica. Na educação, avançar na oferta de vagas em creches e ampliar o ensino em período integral. Na infraestrutura, continuar investindo em mobilidade urbana para acompanhar o crescimento da cidade.
Mas, acima de tudo, quero intensificar a geração de emprego e renda, com atração de novas indústrias, qualificação profissional e criação de oportunidades, especialmente para os jovens. Isso impacta diretamente na redução das desigualdades sociais, melhora a qualidade de vida e fortalece a segurança no município. E precisamos fazer uma nova reestruturação na prefeitura em quase todos os setores, investir em tecnologia para melhorar os processos e com essa valorização, conseguir melhorar cada vez mais o atendimento ao cidadão.
O meu objetivo é claro: ajudar a consolidar Leme como uma das principais cidades do Estado de São Paulo, com desenvolvimento sustentável e oportunidades para todos.
Por isso, se for esse o entendimento da população, eu tenho, sim, a vontade de colocar meu nome como pré-candidato a prefeito em 2028, para continuar trabalhando e concluir esse projeto de cidade que nós iniciamos.
10) Para encerrar, qual mensagem o senhor deixa para a população?
Wagão: Estamos vivendo um momento que exige reflexão.
A Páscoa nos convida a olhar para dentro, rever atitudes e valorizar princípios como respeito, responsabilidade e cuidado com o próximo. Que possamos resgatar esses valores também na vida pública, pensando sempre no bem coletivo.
Desejo a todos uma Feliz Páscoa, com fé, esperança e união.