INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL TRANSFORMA A ODONTOLOGIA E AMPLIA PRECISÃO DOS TRATAMENTOS
Especialista explica como a tecnologia já auxilia diagnósticos, planejamentos e atendimentos, mas alerta que a decisão clínica continua sendo do cirurgião-dentista.
Segundo pesquisa do Instituto DataSenado, 35% dos brasileiros já utilizam ferramentas de inteligência artificial (IA) no dia a dia. Na Odontologia, essa tecnologia também vem revolucionando a prática clínica, tornando diagnósticos mais precisos, planejamentos mais rápidos e tratamentos mais personalizados.
O conselheiro do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP), Dr. Mauricio Querido, explica que a inteligência artificial já deixou de ser uma promessa e faz parte da rotina de muitos consultórios.
"Pense nas radiografias panorâmicas e periapicais utilizadas diariamente pelos cirurgiões-dentistas. Hoje existem sistemas capazes de identificar lesões de cárie em estágios iniciais, sinais precoces de doença periodontal e alterações periapicais que, muitas vezes, podem passar despercebidas. A IA não substitui o profissional, mas funciona como um segundo par de olhos para apoiar o diagnóstico", afirma.
PLANEJAMENTO MAIS PRECISO
Na Ortodontia, a inteligência artificial já está integrada aos tratamentos com alinhadores transparentes. A partir de escaneamentos digitais, softwares conseguem prever a movimentação dos dentes e simular o resultado final do tratamento, reduzindo tempo e aumentando a previsibilidade.
Na reabilitação oral, a tecnologia integra informações obtidas por escaneamentos intraorais, tomografias e fotografias para propor um planejamento digital do tratamento. Já na Implantodontia, a IA auxilia na análise da densidade óssea, identifica estruturas anatômicas importantes e contribui para o posicionamento mais seguro dos implantes.
"Os implantes são uma das áreas em que a inteligência artificial já apresenta benefícios concretos, tanto na segurança quanto na redução do tempo cirúrgico. O paciente percebe rapidamente essas vantagens durante o tratamento", destaca.
ATENDIMENTO MAIS ÁGIL
Além do diagnóstico e do planejamento, a IA também melhora a experiência do paciente. Sistemas inteligentes conseguem organizar agendas de acordo com o tempo previsto para cada procedimento, reduzindo atrasos e otimizando o fluxo de atendimento.
Outra inovação é o escaneamento intraoral, que substitui as moldagens tradicionais por imagens digitais obtidas em poucos minutos. O resultado é enviado imediatamente ao laboratório, acelerando a confecção de próteses e outros trabalhos protéticos.
Segundo o especialista, a tecnologia também melhora a comunicação entre profissional e paciente. "Quando mostramos o problema e o planejamento do tratamento em imagens tridimensionais, o paciente entende melhor o que está acontecendo e participa mais das decisões. Pacientes bem informados tendem a aderir com mais confiança ao tratamento”.
MAIS TEMPO PARA CUIDAR DO PACIENTE
A inteligência artificial também reduz tarefas administrativas. Softwares já conseguem transcrever automaticamente consultas gravadas em áudio e preencher parte dos prontuários eletrônicos, diminuindo o tempo dedicado à documentação e permitindo que o profissional concentre sua atenção no atendimento.
ÉTICA E SEGURANÇA
Apesar dos avanços, o Dr. Mauricio alerta que a IA deve ser utilizada apenas como ferramenta de apoio à decisão clínica.
"O maior risco é confiar cegamente na tecnologia. Um sistema pode deixar de identificar uma alteração ou apontar uma suspeita que não existe. A decisão final sempre será do cirurgião-dentista, que continua responsável pelo diagnóstico e pelo tratamento”.
Outro ponto importante é a proteção dos dados dos pacientes. A IA depende do processamento de imagens e informações clínicas, por isso é fundamental que o profissional utilize softwares desenvolvidos para a área da saúde, com validação científica, mecanismos de proteção de dados e conformidade com a legislação.
O especialista também chama atenção para possíveis vieses dos algoritmos. "Se um sistema foi treinado com uma população muito específica, ele pode apresentar desempenho diferente em pacientes com outras características. Além disso, muitos modelos ainda funcionam como 'caixas-pretas', fornecendo resultados sem explicar claramente como chegaram àquela conclusão”.
TRATAMENTOS CADA VEZ MAIS PERSONALIZADOS
Para o conselheiro do CROSP, uma das aplicações mais promissoras da inteligência artificial é a personalização dos tratamentos.
Ao reunir dados de tomografias, escaneamentos intraorais, fotografias, histórico clínico e, futuramente, até informações genéticas, a tecnologia consegue auxiliar na elaboração de planos terapêuticos cada vez mais individualizados.
O FUTURO DA ODONTOLOGIA
Na avaliação do especialista, a inteligência artificial não substituirá os cirurgiões-dentistas, mas mudará profundamente a forma como a Odontologia é praticada.
"Nos próximos cinco a dez anos, a IA deverá elevar ainda mais a qualidade dos tratamentos. O futuro não é o cirurgião-dentista contra a inteligência artificial, mas o cirurgião-dentista utilizando a IA para oferecer um atendimento cada vez melhor aos seus pacientes”.
Fonte e foto: CROSP