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"FURA-FILA" NA SAÚDE: AÇÃO NA JUSTIÇA APONTA A VEREADORA CINTIA GROSSKLAUSS E O PREFEITO CLAUDEMIR BORGES POR USO POLÍTICO NAS CONSULTAS E EXAMES NO CMI
Jornal Tribuna de Leme | 06/09/2026

"FURA-FILA" NA SAÚDE: AÇÃO NA JUSTIÇA APONTA A VEREADORA CINTIA GROSSKLAUSS E O PREFEITO CLAUDEMIR BORGES POR USO POLÍTICO NAS CONSULTAS E EXAMES NO CMI

O problema das filas para consultas, exames e cirurgias no sistema público de saúde de Leme ganhou um novo capítulo, desta vez, dentro do Poder Judiciário

Uma Ação Popular ajuizada pelo vereador e médico David Pedrão acusa a existência de um mecanismo de “fura-fila” e de interferência política no atendimento do SUS, especialmente no CMI - Centro Médico de Especialidades. Segundo a ação, a utilização política da estrutura da saúde estaria prejudicando justamente quem mais depende do serviço público: o paciente que aguarda regularmente por atendimento.

A ação foi protocolada em 28 de agosto de 2026 e tem como réus o Município de Leme, o prefeito Claudemir Aparecido Borges e a presidente da Câmara Municipal, Cintia Grossklauss.

O QUE SERIA O “FURA-FILA”?

A lógica de uma fila pública deveria ser simples: quem entrou primeiro, respeitados os critérios médicos de prioridade, deve ser atendido primeiro.

O problema apontado na ação é justamente a quebra dessa lógica.

Segundo a denúncia apresentada por David Pedrão, políticos estariam utilizando sua influência para conseguir que determinados pacientes — principalmente eleitores — fossem atendidos antes de pessoas que já aguardavam há mais tempo.

O próprio documento cita depoimentos colhidos pelo Ministério Público no Inquérito Civil nº 0320.0000782.2026, que investiga possíveis irregularidades na gestão das filas e no funcionamento do CMI. A ação afirma que servidores ouvidos pelo Ministério Público teriam relatado interferência política no fluxo de atendimento e nos horários da unidade.

Na prática, o mecanismo descrito é preocupante: enquanto um cidadão aguarda sua vez na fila oficial, outro poderia passar à frente por possuir uma indicação ou acesso político. E é justamente esse ponto que transforma um problema administrativo em um problema que atinge diretamente a população.

QUEM PAGA A CONTA É O PACIENTE QUE ESPERA

A ação sustenta que a utilização política das filas rompe os princípios de igualdade, impessoalidade e moralidade que deveriam orientar o serviço público. Isso significa que o acesso à consulta ou ao exame não deveria depender de quem o paciente conhece, de qual vereador procura ou de qual grupo político possui influência dentro da administração.

A FILA DEVERIA SER DO PACIENTE. NÃO DO POLÍTICO.

O documento argumenta que, quando a estrutura pública é utilizada para beneficiar determinados eleitores, o cidadão que não possui acesso político acaba sendo colocado em desvantagem.

A PRÓPRIA SECRETARIA DE SAÚDE RECONHECEU O PROBLEMA

Um dos elementos utilizados na ação é a manifestação feita pela então secretária municipal de Saúde, Lisete Ganeo, durante audiência na Câmara Municipal, em 22 de junho de 2026.

Ao falar sobre os problemas enfrentados pela rede, a secretária reconheceu publicamente a existência de um “grave problema da fura fila de agendamento das consultas e exames”.

Na ocasião, ela afirmou que políticos procuravam a Secretaria para pedir prioridade para consultas e exames e relatou que eleitores poderiam ser colocados à frente de outras pessoas que aguardavam atendimento. A declaração se tornou um dos principais elementos utilizados na ação para sustentar a necessidade de intervenção judicial.

SEM TRANSPARÊNCIA, NINGUÉM CONSEGUE FISCALIZAR A FILA

Outro ponto central levantado pelo vereador é a falta de transparência das listas de espera.

Leme possui a Lei Municipal nº 3.742/2018, que determina a divulgação das listas de pacientes que aguardam consultas especializadas, exames e cirurgias, respeitando a privacidade dos usuários por meio do número do CNS - Cartão Nacional de Saúde.

A ação afirma que essa legislação não estaria sendo cumprida de maneira adequada e que a falta de divulgação das listas dificulta a fiscalização por parte da população e dos órgãos de controle.

E o raciocínio apresentado é direto: se ninguém consegue enxergar a fila, também fica muito mais difícil saber quem está passando na frente.

Segundo a ação, a ausência de uma lista pública e atualizada criaria um ambiente de pouca transparência, no qual eventuais favorecimentos poderiam ocorrer sem que o cidadão tivesse condições de acompanhar.

SERVIDORA TERIA SIDO EXONERADA APÓS DEPOR AO MINISTÉRIO PÚBLICO

A ação também relaciona a crise à situação de uma servidora da Secretaria Municipal de Saúde, Amanda Basílio.

Segundo o documento, Amanda teria prestado depoimento ao Ministério Público durante as investigações e, posteriormente, sido exonerada de uma função de chefia após mais de dez anos de atuação no município.

David Pedrão sustenta que a exoneração teria ocorrido como forma de retaliação política pela colaboração da servidora com a investigação. Essa é uma das questões que também deverão ser analisadas no processo judicial.

O QUE DAVID PEDRÃO QUER MUDAR?

A ação não pede apenas que eventuais irregularidades sejam reconhecidas. Ela busca mudar o funcionamento do sistema.

Entre os principais pedidos estão:

• impedir qualquer interferência política nos agendamentos e na ordem das filas do SUS;

• afastar Cintia Grossklauss de qualquer ingerência sobre o fluxo e os agendamentos do CMI;

• impedir eventuais práticas de perseguição ou retaliação contra servidores;

• suspender a exoneração de Amanda Basílio e determinar sua recondução à função;

• obrigar a Prefeitura a cumprir integralmente a Lei nº 3.742/2018;

• determinar a divulgação e atualização das listas de espera de consultas, exames e cirurgias.

Ao final, David pede que a Justiça reconheça a nulidade de atos de suposta interferência político-partidária no CMI e daquilo que a ação classifica como “fura-fila institucionalizado”.

UMA DISPUTA QUE VAI MUITO ALÉM DA POLÍTICA

Independentemente da disputa política existente no município, o ponto central levantado pela ação é um problema que atinge diretamente a vida das pessoas.

Consulta médica não é favor. Exame não é presente de vereador. Cirurgia não pode ser moeda de troca política.

Para quem depende do SUS, meses de espera podem significar dor, agravamento de uma doença, perda de qualidade de vida e, em situações mais graves, risco à própria saúde. É justamente por isso que a ação sustenta que a gestão da fila precisa ser técnica, transparente e impessoal, sem espaço para privilégios políticos.

A QUESTÃO AGORA ESTÁ NAS MÃOS DA JUSTIÇA.

A Ação Popular ainda será submetida ao contraditório, e os citados terão oportunidade de apresentar suas defesas. Portanto, as acusações apresentadas no processo ainda serão analisadas judicialmente e não representam, neste momento, uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos envolvidos.

Mas a pergunta colocada pela ação é simples e interessa a todos os usuários da rede pública: NA FILA DO SUS, DEVE PASSAR NA FRENTE QUEM TEM MAIS URGÊNCIA MÉDICA OU QUEM TEM MAIS INFLUÊNCIA POLÍTICA?